Aula 7
Sumário
- Técnicas para criar personagens.
- Como construir um herói.
- Análise de um exemplo de D. Quixote de la Mancha, de Miguel Cervantes.
- Exercícios.
Técnicas para criar personagens
Super-homem, Hulk, o Homem de Ferro, Batman, Mulher-Maravilha, Homem-Aranha, o Surfista Prateado, etc. Muitas destas figuras tornaram-se populares a partir da década de trinta do século passado. Consciente ou inconscientemente, todos admiramos os heróis da literatura, BD, televisão ou cinema. Estes possuem qualidades que desejávamos ter e, por vezes, procuramos até imitá-los.
Nesta aula, aprenderá a construir um super-herói, à sua medida!
- Qual o seu herói ou super-herói favorito? Porquê?
- Que caraterísticas gerais partilham os heróis da BD?
Como construir um herói
Leia atentamente o seguinte texto e, depois, responda às questões colocadas:
Heróis de papel e tinta
“No último Outono, ao arrumar o sótão, descobri a caixa onde guardava o maior tesouro da minha adolescência: meia centena de livros aos quadradinhos, protagonizados por heróis como o Homem-Aranha, Batman ou a Mulher Maravilha. Soprei o pó de uma capa: o Super-Homem esvoaçava por entre os arranha-céus de Metrópolis, o punho erguido desafiando as forças do mal. Gerações de rapazes e raparigas como eu admiraram aqueles heróis de papel e tinta, a sua ética, a energia, os poderes extraordinários.
Acredito que os grandes protagonistas fazem as grandes histórias. Poucos leitores recordam com pormenor as aventuras de Dom Quixote, mas quase toda a gente já ouviu falar nele. Isto significa que a personagem é mais memorável e importante do que o enredo da história e, por isso, o escritor aprendiz deve saber construí-la. E se inventássemos um super-herói para os dias de hoje? Existem, na Escrita Criativa, técnicas que o podem ajudar nesta tarefa, evitando erros desnecessários.
Primeiro conselho: um jovem leitor deve aderir à personagem, sofrer com ela quando perde e regozijar com as suas vitórias. Para tal, é necessário estabelecer empatia com o super-herói. Este deve possuir qualidades como a força, a coragem, o carisma e altruísmo. No entanto, se um herói fosse imortal, a vitória contra a força das trevas seria previsível e as aventuras não gerariam suspense. Por isso, é sensato atribuir-lhe defeitos e medos, que o aproximem da condição humana do leitor. Até o Super-Homem tem problemas, desde uma malha nos “collants”, até à kriptonite, uma substância radioativa letal.
Já reparou que a maioria dos protagonistas possui poderes de animais? O Homem-Aranha trepa pelos edifícios, Batman emerge como um morcego na noite da Gotham City, enquanto o Tarzan é um verdadeiro homem-macaco, saltando de liana em liana, com um grito animalesco. Por que não criar um herói com as capacidades de um animal da fauna lusitana: um lince da Malcata, um golfinho do Tejo ou um lobo de Trás-os-Montes?
Por fim, não se esqueça que os heróis possuem um lado humano: Clark Kent (Super-Homem) apaixonou-se por Lois Lane, colega no jornal “Daily Planet”. Quando a via, gaguejava e compunha os óculos nervosamente, revelando uma timidez que fazia rir os leitores. Alternando com a aventura, uma história romântica desenfastia da ação, e proporciona um momento para ganhar fôlego. Por outro lado, revela a faceta mais frágil, mas não menos bela, de um herói.
Passei o resto da tarde no sótão, a folhear os livros aos quadradinhos que redescobrira após trinta anos, e confesso que senti a mesma admiração de outrora. Tal como os gregos e os latinos tinham vibrado, na Antiguidade, com Hércules, Aquiles ou Diana, também hoje admiramos os super-heróis e gostaríamos de ser como eles. Daniel Pennac afirmou que amar os protagonistas dos livros é um direito do leitor. E constitui, acrescento, o nosso passaporte para o sonho neste mundo demasiado real”.
— Mancelos, João de. “Heróis de Papel e Tinta”. Os Meus Livros 97 (abril 2011): 38.
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O autor do texto (eu) admira várias qualidades nos super-heróis. Quais?
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Qual será mais importante: o protagonista ou o enredo? Dê a sua opinião.
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Que super-heróis possuem caraterísticas de animais? Como se servem destas?
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Por que motivo será importante criar heróis com defeitos, medos, fragilidades?
Superman, criado por Joe Shuster e Jerry Siegel
Análise de um exemplo de D. Quixote de la Mancha, de Miguel Cervantes
Dom Quixote de la Manchafoi escrito por Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616), e publicado em duas partes, em 1605 e 1615. É considerado um clássico da Literatura, e é o segundo livro mais vendido a seguir à Bíblia. Leia o excerto seguinte e responda às questões:
“Num lugar da Mancha, cujo nome não quero lembrar-me, vivia, não há muito, um fidalgo, dos de lança em cabido, adarga antiga, rocim fraco, e galgo corredor. (…) Orçava na idade o nosso fidalgo pelos cinquenta anos. Era rijo de compleição, seco de carnes enxuto de rosto, madrugador e amigo da caça. (…) É pois de saber que este fidalgo, nos intervalos que tinha de ócio (que eram os mais do ano), se dava a ler livros de cavalaria, com tanta afeição e gosto, que se esqueceu quase de todo do exercício da caça e até da administração dos seus bens; e a tanto chegou a sua curiosidade e desatino neste ponto, que vendeu muitas courelas de semeadura para comprar livros de cavalarias que ler; com que juntou em casa quantos apanhou daquele género”.
— Cervantes, Miguel de. O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de la Mancha. Trad. Viscondes de Castilho e de Azevedo. Estarreja: MEL Editores, 2009.
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Quais são as caraterísticas da personagem que sobressaem do texto?
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De acordo com o seu conhecimento da obra, D. Quixote (conhecido como o Cavaleiro da Triste Figura) é um herói, um anti-herói, ou ambos? Debata.
Exercício
Invente um herói ou super-herói e apresente-o aos leitores, em meia página. Refira os seus poderes, fraquezas e ambições.
Dicas práticas
- No conteúdo, humanize o herói mencionando um ou dois dos seus defeitos ou medos.
- No estilo, evite usar demasiados adjetivos, advérbios ou possessivos desnecessários. Numa frase, a força pode residir na escolha de um verbo sugestivo.
- Para descrever o seu herói pode usar um tom assustador ou humorístico.
Para refletir
“Faça as suas personagens viver! Mas estas têm de ser mais do que pessoas. Devem ser um ultra-concentrado de pessoas” (John Steinbeck).
“As personagens fazem o enredo. Se as trouxer à vida, as suas ações tornar-se-ão na história” (Sol Stein).
“Typewriter”, de autor desconhecido
Trabalho final
Ao longo destas sete aulas, estudou várias técnicas de EC aplicadas à narrativa ficcional. Aprendeu a desbloquear a inspiração; a recolher ideias para um texto; a contar e a mostrar; a elaborar parágrafos iniciais convidativos; a gerar situações de suspense; a criar um diálogo realista; a dar o sopro da vida a um herói ou super-herói.
Agora, recorrendo a esses ensinamentos, crie uma história, e partilhe-a com os seus amigos e colegas. Boa escrita, bom trabalho!
© João de Mancelos, julho de 2011







